A Kayzer Ballet apresenta nos dias 5 e 6 de fevereiro, às 21h30, no Teatro Municipal da Covilhã, um programa duplo de grande relevância artística que assinala um momento inédito no panorama da dança em Portugal: a apresentação de obras de Marco Goecke e Marcos Morau, dois dos mais influentes coreógrafos da cena contemporânea internacional. Sob a direção artística do covilhanense Ricardo Runa, com esta produção a Kayzer Ballet torna-se a primeira companhia portuguesa a apresentar repertório destes criadores de referência absoluta da dança europeia.
O programa integra Blushing, de Marco Goecke, obra criada em 2003 para o Stuttgart Ballet e que marcou o início da projeção internacional do coreógrafo. “Blushing”, que significa “corar”, parte da exploração do que acontece no interior do ser humano quando é subitamente confrontado consigo próprio. Premiada ainda antes da estreia com o Prix Dom Pérignon, em Hamburgo, a coreografia surpreendeu pela sua linguagem inovadora e intensa, mais tarde reconhecida como um verdadeiro “sistema goeckiano”. Num palco completamente vazio, sem cenografia ou adereços, a peça revela uma fisicalidade extrema e obsessiva, alternando momentos de agressividade e colapso interior, acompanhados por uma banda sonora que oscila entre punk rock, música de rua e silêncio absoluto. Tudo converge para a presença artística e a convicção interpretativa dos bailarinos, num universo coreográfico sombrio, virtuoso e profundamente singular.
O espetáculo apresenta ainda Valse, de Marcos Morau, uma reflexão coreográfica sobre a valsa enquanto símbolo cultural de elegância, ordem social e harmonia. Partindo desse imaginário coletivo, a obra desconstrói-o progressivamente, revelando um mundo em que a repetição, a exaustão e a fragilidade humana assumem um papel central. Os intérpretes movem-se entre o controlo e o colapso, a precisão formal e a perda de equilíbrio, criando uma atmosfera densa e perturbadora, característica da linguagem estética rigorosa e cinematográfica de Morau. Valse transforma a valsa numa metáfora de um mundo que gira incessantemente sobre si próprio, questionando a persistência dos rituais coletivos e convidando o espectador a observar o que acontece quando a dança continua, mesmo quando já não há música.
A estreia deste programa será na Covilhã e seguirá depois para Bragança e Gouveia que em conjunto com a Câmara Municipal da Covilhã são coprodutores da produção que representa um marco artístico para a Kayzer Ballet e para a região, trazendo ao público local criações de enorme impacto internacional e reforçando o papel da companhia na divulgação da dança contemporânea de excelência em Portugal.