Opinião: José Páscoa | Luís Garra e a Dialética dos Anti-Portagens
Por Jornal Fórum
Publicado em 19/03/2026 09:00
Opinião

É relativamente fácil entrar em divergência epistemológica com Luís Garra, tal fado é inevitável quando nos cruzamos com personalidades de convicções graníticas. Contudo, não podemos permitir que a discórdia se sobreponha ao interesse comunitário, valor que deve ser sempre soberano. É, precisamente, essa a mensagem fundamental do novo livro de Luís Garra: “O Interior É Razão - Abolição das Portagens uma História de Luta com Final Feliz”.

Não sejamos ingénuos, este livro traz "água no bico". A mente inquieta de Luís Garra, homem de barricadas e de mobilização, jamais produziria uma obra que se limitasse ao mero depósito memorialista. O livro é um testemunho, sim, mas visa, primordialmente, convocar-nos para novas batalhas e conquistas em prol do desenvolvimento do nosso território comum.

Em primeiro lugar importa recordar que o levantamento das portagens não é uma verdade eterna, a vigilância terá de ser constante! Por outro lado, subsistem, no capítulo crítico das acessibilidades, os casos do IC6 para Coimbra e do IC31 para Madrid, eixos pelos quais é imperativa e essencial a mobilização de todos. Se esta obra servir para despertar consciências em torno destes dois grandes projetos, a sua publicação terá valido a pena também por isso. São estas, e muitas outras, as provocações que Luís Garra nos lança e, como Nuno Ramos de Almeida sintetiza no livro, “é possível vencer”!

Luís Garra descreve, com a elegância devida, o contributo de empresários onde nomes como Luís Veiga, Ricardo Fernandes, Ana Palmeiro e José Gameiro surgem na vanguarda. Isto, claro, sem esquecer a génese da ação de Jorge Fael e Marco Gabriel, e também a mobilização sindical, assim como as comissões de utentes e a resiliência de alguns responsáveis municipais.

A Plataforma P’la Reposição das SCUT na A23 e A24 foi um exemplo raro de convergência num país onde impera, tantas vezes, o fomento da desunião. Como bem observou Mário Raposo, Portugal (leia-se, Lisboa) ocupou-se séculos a fio a descobrir e a desenvolver o mundo pluricontinental, negligenciando a sua própria dimensão regional e o interior do continente. Há quem defenda, com sobranceria, que num país desta dimensão não existe "interior". Estão redondamente enganados. O estigma do interior, e a sua prova factual, manifesta-se na assimetria demográfica nacional, dramaticamente concentrada no eixo Lisboa–Braga, em crescente bola de neve.

Muito se escreve sobre uma certa fatalidade que amarra Portugal ao subdesenvolvimento há centenas de anos. Todavia, a verdade é de uma simplicidade gritante, Portugal não se desenvolve porque desistiu do seu território, porque insiste em isolar cidades e vilas em "arquipélagos" terrestres. A teimosia em adiar o IC6 para Coimbra e o IC31 para Madrid amputa o desenvolvimento de todo um eixo horizontal que uniria Madrid à Figueira da Foz, passando pela Covilhã. Mas é possível vencer. É possível fazer acontecer pelas pessoas.

As SCUT foram o desígnio de um jovem engenheiro que, em tempos, visitava os seus avós na aldeia de Donas, aqui bem perto - António Guterres. Foi ele quem projetou o Programa Polis para dotar as cidades do interior de atratividade e vida. Era a visão de um Portugal sustentado numa rede de cidades médias capaz de alavancar o território. É lamentável que, perante a urgência de “cortar gorduras”, o olhar se vire invariavelmente para o interior, esquecendo que os “mais gordinhos” residem na capital, em snobes e bem providas quintas, distantes desta realidade.

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