Opinião: Pe. Tiago Fonseca | Quaresma e Páscoa, Caminhos de Esperança
Por Jornal Fórum
Publicado em 26/03/2026 09:00
Opinião

Deus, tu que nos conheces

dos nossos murmúrios,

dos nossos silêncios usados,

das lágrimas

e desencorajamentos,

desperta-nos

nós que avançamos para a fonte da tua Cruz,

a fim de que possamos glorificar-te na alegria

e servir-te na esperança

hoje e sempre[1].

 

 

A vivência da Quaresma e a celebração da Páscoa são momentos vitais da tradição cristã. Celebrar é um ato fundamental na vida dos seres humanos. Sabemos bem da importância de algumas datas ou momentos que não queremos que passem despercebidos na esteira da nossa existência e do nosso caminhar. O aniversário natalício, a conclusão de um ciclo de estudos, o nacimento de uma nova família, são muitas as razões que nos fazem, a certa altura, quebrar a rotina do dia-a-dia para comemorar e celebrar. E sempre que celebramos ou fazemos memória de algo importante, preparamo-nos. Idealizamos uma forma de celebrar, uma refeição partilhada, uma viagem, um regresso às origens. Celebrar bem implica uma preparação, supõe um conjunto de esforços para assinalar um momento ou dar graças pela vida de alguém.

A família cristã, vendo na Páscoa a celebração central do seu itinerário de fé, desde cedo, sentiu necessidade de uma devida preparação. Nasce assim a Quaresma, tempo litúrgico que antecede a Páscoa e que prepara os cristãos para a celebração do mistério pascal de Jesus Cristo: paixão, morte e ressurreição. O carácter originário deste tempo litúrgico, segundo a força expressiva da própria palavra Quaresma, é a penitência de toda a comunidade e de cada cristão ao longo de quarenta dias. O número quarenta expressa um profundo significado simbólico, aludindo aos quarenta dias que Jesus passou no deserto jejuando e sendo tentado (cf. Lc 4, 1-13), os quarenta dias do diluvio (cf. Gn 7, 21), e a grande peregrinação do povo de Israel durante quarenta anos rumo à terra da promessa (cf. Nm 14, 33-35), para além de outras alusões.

Desde quarta-feira de cinzas até à manhã de quinta-feira santa, o tempo quaresmal prepara os fiéis para a celebração do Tríduo Pascal; os catecúmenos, pelos diversos degraus da iniciação cristã, para o batismo; os penitentes para a reconciliação. Ao longo de séculos foram vários os exercícios espirituais que a Igreja foi desenvolvendo para melhor ajudar os fiéis na sua preparação pascal. Destacam-se a leitura orante e mais frequente da Palavra de Deus, o jejum e a partilha fraterna (caridade).

Finalmente, na sua dimensão batismal a Quaresma reaviva em todos os cristãos um caminho de esperança numa conversão permanente a Jesus e ao seu Evangelho.

O cristianismo nasce do coração do Mistério Pascal: a ressurreição. Trata-se do acontecimento central da fé cristã. Assim o afirma São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1Cor 15,14). A festa da Páscoa encontra a sua génese já no Antigo Testamento na comemoração da saída do povo de Israel do Egito e a sua passagem pelo mar vermelho (cf. Ex 12). A expressão Páscoa nasce, precisamente, deste sentido de uma passagem: Deus ´passou por cima´, protegeu as casas dos israelitas poupando o povo do flagelo, em razão do sangue do cordeiro que assinalava as casas (cf. Ex 12, 24), e conduziu-o com mão forte e braço poderoso até à terra prometida.

Na verdade, a ressurreição de Jesus não é sinónimo da reanimação de um cadáver, mas uma transfiguração universal, não simplesmente da morte à vida, mas da morte a uma vida nova que cada cristão é hoje convidado a experienciar. A Páscoa dos cristãos, como nos lembra São Bernardo, significa “passagem” e não um “regresso”, porque Jesus não voltou à situação anterior, mas ultrapassou uma fronteira para uma condição nova e definitiva: “se morremos com Cristo, acreditamos que também com Ele viveremos” (Rm 6, 8). Esta identidade reflete-se simbolicamente na luz do círio pascal que ilumina todas as trevas e na água que aspergimos sobre nós, recordando aos fiéis que pelo Batismo, renascemos para a vida nova em Cristo.

Da celebração da Vigília Pascal, na noite de sábado santo, ressoa uma voz que aclama: “Cristo, minha esperança, ressuscitou! Aleluia!” (sequência da Páscoa). A Páscoa de Jesus é para todos um sinal de esperança: “é a vitória do amor sobre a raiz do mal, uma vitória que não ´salta´ por cima do sofrimento e da morte, mas atravessa-os abrindo uma estrada no abismo, transformando o mal em bem: marca exclusiva do poder de Deus”[2]. Que durante os cinquenta dias do Tempo Pascal possamos abrir o nosso coração a esta esperança renovadora e transformadora.



[1] Páscoa de páscoas II, José Augusto Mourão, O nome e a forma (Lisboa: Pedra Angular, 2009), 26.

[2] Papa Francisco, Mensagem Pascal Urbi et Orbi 2020.

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