Reportagem: As Memórias que Abril preserva
Hoje recuperamos uma reportagem escrita em 2019, onde homenageamos um ex-sindicalista, Manuel Carrola, que lutou pela Liberdade e pelos princípios de Abril, pelos trabalhadores e pelos pensionistas
Por Jornal Fórum
Publicado em 25/04/2026 09:00
Sociedade

Por efeméride das comemorações do 48º aniversário da data da revolução, o Jornal Fórum recorda diversos testemunhos que ouviu ao longo dos anos, de antigos trabalhadores, um delegado sindical que já exercia estas funções antes do 25 de Abril e do ex-Coordenador da União de Sindicatos de Castelo Branco que também falou do programa comemorativo que esta entidade promove para festejar este ano, o 25 de Abril e o 1º de Maio. Neste 25 de Abril homenageamos também Manuel Carrola, que faleceu no início do mês de abril e que há alguns anos deu o seu testemunho sobre a efeméride. Um testemunho que nos marca e que voltamos a reproduzir nesta Reportagem Especial.

 

“Um dos momentos mais marcantes a que assisti até hoje”

Manuel Carrola, já falecido, já exercia as funções de delegado sindical antes do 25 de Abril. Diz que se lembra “como se fosse hoje” de receber a notícia do «Golpe de Estado» e dos festejos que se seguiram na cidade da Covilhã. “Trabalhava na firma Alberto Roseta. Quando cheguei à empresa, o mestre informou-me que estava acontecer algo, já que na rádio apenas passava música de fundo. Para mim não foi estranho, porque já tinha conhecimento do golpe falhado/ensaiado e sabia que a revolução estaria para acontecer”, afirma.

Recorda que após a confirmação do «Golpe de Estado» “as fábricas e as escolas fecharam”, ocorrendo uma “forte mobilização para o centro da cidade da Covilhã”. Lembra que o edifício da autarquia covilhanense foi ocupado pacificamente pelos populares que saudavam as milhares de pessoas que se concentraram no Pelourinho e gritavam «Viva a Liberdade».

Contudo, para Manuel Carrola, o 1º de Maio “foi mais marcante. Digo mesmo que foi um dos momentos mais marcantes a que assisti até hoje”. Além da forte mobilização do povo, justifica que o 1º de Maio “veio sustentar o 25 de abril”.

Apesar da repressão existente Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, de 1933 a 1968, e posteriormente, até à revolução por Marcelo Caetano, Manuel Carrola conta que na Covilhã, o povo já se tinha manifestado, com a realização de greves antes do 25 de Abril. “Em finais dos anos 60, os trabalhadores da Nova Penteadora e da fábrica Ernesto Cruz fizeram greve. A Covilhã tinha um forte movimento associativo e o convívio nas coletividades permitia-nos conversar e abordar reivindicações, como o aumento do salário e conseguimos pequenas conquistas ainda antes do 25 de Abril”, recorda.

Passados 44 anos da restituição da democracia ao povo português. Manuel Carrola afirma que "a liberdade  e a democracia foram conseguidas", bem como "a melhoria das condições de vida", sublinhando que "o povo era pobre, havia casas sem luz e muitas crianças iam descalças para a escola."

Assinala, no entanto, que “hoje há outros problemas sociais que carecem de resposta, como a exploração laboral que se pratica ou o desemprego que tem taxas elevadas”. “É preciso perceber que a situação económica e financeira mudou com a entrada de Portugal na Europa. Antes do 25 de Abril tínhamos cerca de 100 fábricas na Covilhã que empregavam dez mil trabalhadores, e hoje, o número de fábricas é bastante reduzido e emprega pouco mais de 2000 trabalhadores”, conclui.

 

“O grande 1º de Maio ajudou a consolidar o 25 de Abril”

“O Spínola não queria que o 1º de Maio, a seguir ao 25 de Abril fosse feriado e não queria autorizar manifestações. Uma delegação da Intersindical reuniu com o Spínola e disse-lhe que quisesse ou não, no 1º de Maio não se trabalharia e iria haver manifestações”, recorda Luís Garra. Para o coordenador da USCB “é importante” lembrar este facto, para que “a história não seja desvirtuada. O 1º de maio foi o grande impulso para que o 25 de Abril fosse uma revolução transformadora e se consolidasse. Sem o 1º de Maio e a adesão popular que essa data teve, não vou dizer que o 25 de Abril não teria êxito, mas seria muito duvidoso que o tivesse, porque as forças fascistas não se entregaram logo e estavam a reorganizar-se”.

 

As “expectativas” frustradas de uma revolução que “prometia mais”

Célia Fernandes era operária na fábrica Ernesto Cruz quando se deu o 25 de Abril. Recorda as manifestações que se realizaram na cidade da Covilhã, a “alegria contagiante” e “as expectativas dos portugueses”. Do 25 de Abril, particularmente, assinala que “permitiu acabar com a guerra colonial, onde o meu marido estava, e quando voltou conheceu o filho que já tinha três anos. A revolução trouxe também liberdade”. Contudo, considera que “as expectativas não foram cumpridas em todos os aspetos”. Aponta que o “custo de vida está muito elevado”, e que “há um número significativo de pessoas em situação muito difícil a nível económico”.

Maria Fazendeiro, também ex-operária, aponta “positivamente” que o 25 de Abril acabou com a guerra colonial e com a grave situação social que se vivia, mas diz que “a qualidade de vida dos portugueses não melhorou face ao que se perspetivava. Hoje o desemprego é acentuado, com grande número de jovens sem trabalho, a justiça não funciona, muitas empresas ficam sem pagar aos trabalhadores e as reformas são pequenas”.

Já Benvinda Saraiva era doméstica quando assistiu à «Revolução dos Cravos» e diz que prefere apenas sublinhar os “aspetos positivos” resultantes do 25 de Abril. “Antes não havia liberdade, não podíamos conversar com ninguém, pois o medo era permanente. O 25 de Abril trouxe liberdade, melhores salários e apoio social. Por tudo isto, que é muito, valeu a pena”, conclui.

Luís Garra lembra Revolução dos Cravos

Com 17 anos quando se deu o 25 de Abril, Luís Garra já trabalhava há sete. “Comecei a trabalhar aos 10 anos, num alfaiate e aos 11 fui para a fábrica Sá Pessoa e Irmãos e recordo-me dos trabalhadores a referirem que tinha havido um «Golpe de Estado». Depois é dada a palavra de ordem para sairmos para a rua, dirigimo-nos ao Pelourinho e lembro-me do entusiasmo, da alegria e da satisfação nas ruas da Covilhã”, recorda.

A Covilhã pela sua caraterística operária marcante e com o forte movimento associativo “já lutava contra o regime ditatorial antes do 25 de Abril”. Entre outras ações, na Covilhã realizaram-se as negociações do Contrato Coletivo de Trabalho em 1973; seguiu-se a «Greve dos Mil Escudos», mas já em 1941 e 1946 e nos anos de 1960, se realizaram greves na Covilhã. “As coletividades tiveram um papel muito importante na politização das pessoas, principalmente dos trabalhadores, porque era aí que se encontravam, conversavam, e depois tinham o sindicato onde organizavam a sua intervenção. A adesão popular ao 25 de Abril na Covilhã é resultado de toda uma cultura e quem vir a história do movimento operário percebe que temos aqui uma tradição de luta reivindicativa muito poderosa ainda antes do 25 de Abril”, explicou Luís Garra, que após cinco anos da «Revolução dos Cravos» chegou a coordenador da União de Sindicatos de Castelo Branco, cargo que desempenhou por 41 anos.

Luís Garra destaca que com o 25 de Abril “foram dados saltos extraordinários a todos os níveis, no plano laboral, salarial, mas também social. Hoje a vida, apesar de todos os problemas que temos, é incomparavelmente melhor. Quem fala no Salazar, e diz que é preciso um, não sabe o que foi o fascismo. Foi fome, tortura, prisão, guerra e exploração intensa”, afirma.

No entanto, face ao momento peculiar que o mundo atravessa considera que “é preciso estar vigilante”. “A pretexto e à boleia da pandemia alertei que se estavam a cortar direitos, a reduzir rendimentos aos trabalhadores e tentaram impor férias antecipadas, com os lay-offs. Esta situação foi revertida por força da atuação dos sindicatos e da CGTP e que depois teve tradução no Orçamento de Estado por pressão do PCP, sendo que o lay-off passou a ser considerado a 100%. No ano de 2020, o corte de rendimentos dos trabalhadores foi muito significativo e as associações patronais, com o pretexto da pandemia, recusam-se a negociar aumentos salariais”.

 

“O 25 está incompletamente cumprido, mas significou balanços extraordinários na vida das pessoas. Temos de o saber preservar e combater a exploração é uma palavra de ordem muito forte nos tempos que atravessamos”, concluiu.

 

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