Os nascidos no grande ano de 1974 têm muito a comemorar. São filhos de uma nova era onde a liberdade se tornou elemento presente, ainda que nos costumes essa valência pudesse demorar um pouco mais a fazer-se sentir. Aos que, como eu, nasceram no Brasil, restou receber uma educação trivial, sem muitos alardes sobre os bastiões da liberdade, da igualdade e da fraternidade.
Por mais que tenha percebido mudanças em minha personalidade, posso dizer que sempre fui um sujeito fraterno. A vivência escolar com alunos internos, muitos deles institucionalizados ou simplesmente desfavorecidos, fez com que o espírito da igualdade criasse em mim um sentimento mais real. Até porque nenhum ser humano é igual ao outro. Somos, sim, semelhantes. Igualdade, de facto, só nos direitos e obrigações e, ainda assim, com certas ressalvas para proteger casos específicos. E mesmo assim, ainda pecamos neste quesito.
Infelizmente, não cresci em um mundo de igualdade entre homens e mulheres. Como tantos da minha geração, éramos criados para jogar à bola, brincar aos carrinhos e correr à rua. As meninas, por sua vez, eram estimuladas desde cedo a serem «meninas bem comportadas», como bem diz o título de Simone de Beauvoir. No sexo, éramos estimulados a crescer como bons reprodutores, futuros copuladores, gulosos acumuladores de experiências, como se do outro lado não existissem mulheres de carne e osso, como nossas mães, tias e irmãs. Quem daria vazão a toda essa energia? Tudo era estimulado aos homens, menos o choro e a sensibilidade. Tornámo-nos quase irracionais. Às mulheres, faltava dizer que, para os homens satisfazerem seus desejos implantados de masculinidade exacerbada, seria necessário concordar com tais comportamentos.
Muitos dos homens da minha idade cresceram, como eu, sem a ideia de que era preciso agir como agem as mulheres. Pior, crescemos sem a culpa de que para cumprirmos a cartilha do bom reprodutor, do macho alfa, era preciso que as mulheres cedessem seus corpos para que a energia sexual pudesse ser canalizada. Aos meninos, a pornografia e a prostituição não eram um problema, eram ritos de passagem. Um passo na formação do estereótipo do «homem que é homem não chora». E o resultado aí está. Um mundo sem evolução, absolutamente insensível a tudo o que se passa com a humanidade. A cada dia são conhecidos casos e mais casos de abusos sexuais, muitos deles cometidos sem a consciência dos próprios abusadores. Excessos que vão muito além do acto em si. Estão nos pensamentos, nas atitudes, na forma de tratar o que é feminino e, por que não dizer, sagrado.
Mas há mais questões neste universo e que também precisam ser consideradas. O comportamento masculino, arrastado das décadas passadas, trouxe uma série de nuances psicológicas que atravessaram os mais variados ambientes da vida em sociedade. Guerras, corrupção, violência, politicagem, ditaduras. Se observarmos bem, são todos comportamentos genuinamente masculinos. E nem é preciso dizer que até mesmo os homens já se deram conta de que é preciso mudar. Mas não mudam. Nessa cristalização de consciência e, do alto do pedestal de indiferença, homens toleram homens e a violência permanece viva.
(…)
Outro dia observei uma publicação na rede social. Uma animação sobre o momento da fecundação. Nela, os valentes e velozes espermatozóides corriam em direção do oócito com uma agressividade notável. Os tais «grandes vencedores», os «primeiros colocados», depois de deixarem milhares de outros (nem tão iguais) para trás, partiam para a missão da fecundação. Como? Agressivamente, dando cabeçadas à parede celular, como se a própria criação humana fosse um acto de violência, que precisasse de força e agressividade. Um erro. Um erro gigante! Já nem tão subtil. Uma simples animação, a informar milhares de observadores que o mais lindo fenómeno humano, a conceção, é um acto de agressão à célula feminina da vida. Por certo, um pecado original, com o perdão da licença nada poética.
Nós, homens ou machos, por natureza, esquecemos que não somos o centro da Criação. Do contrário, seríamos nós os escolhidos para gestar nossos descendentes. Acreditemos ou não em Deus ou na Natureza, é tempo de reavaliar essa masculinidade toda que anda por aí. A ignorância (enquanto sinónimo de testosterona) tem levado a raça humana à destruição, à indiferença e ao caos. Se, ao contrário, o mundo fosse mais feminino ou, se ao menos os homens tivessem mais respeito pelas mulheres, estaríamos certamente bem mais evoluídos. Por certo que o planeta estaria mais calmo, mais estável, mais justo, igualitário e fraterno. Pensemos nisto! Pensemos em nossas crianças, em nossos filhos. O mundo está cansado dos machos. É preciso reinventar os homens.