Professor da UBI e presidente da Academia Portuguesa de Fibromialgia ingressou na Real Academia de Medicina do País Basco
Por Jornal Fórum
Publicado em 29/06/2026 11:51
Sociedade

O médico e investigador José Luís Arranz Gil tomou posse, no passado dia 16 de junho, como Académico Correspondente da Real Academia de Medicina do País Basco, numa cerimónia realizada em Bilbau, no Salão Francês da Sociedade Bilbaína, uma instituição de referência criada em 1839. Especialista em Fibromialgia, professor de Patologia Geral da Faculdade de Medicina da Universidade da Beira Interior (UBI), presidente da Academia Portuguesa de Fibromialgia, Síndrome de Sensibilidade Central e Dor Crónica e responsável pela primeira Unidade de Fibromialgia criada em Portugal, na Covilhã, este académico vê assim reconhecido internacionalmente um percurso dedicado à investigação, ao ensino e à prática clínica nesta área.

Durante a sessão solene, que decorreu perante uma sala esgotada, o Professor Doutor José Luís Arranz Gil apresentou a conferência “Compreendendo a Fibromialgia: Modelo de Síntese e Unificação Fisiopatológica”, na qual expôs uma proposta científica destinada a integrar diferentes modelos explicativos da doença numa visão fisiopatológica comum. A distinção atribuída pela Real Academia de Medicina do País Basco, considerada uma das mais prestigiadas instituições médicas da região e da Espanha, representa o título máximo a que um médico pode aspirar no País Basco.

Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, José Luís Arranz Gil refletiu sobre o significado desta nomeação para a investigação portuguesa, abordou o trabalho desenvolvido pela Academia Portuguesa de Fibromialgia e pela Unidade de Fibromialgia da Covilhã, analisou os desafios que persistem no reconhecimento científico da doença e revelou ainda novos projetos de cooperação internacional, formação médica e investigação que pretende desenvolver nos próximos anos.

 

O que significa para si esta distinção e de que forma acredita que ela contribui também para o prestígio da investigação portuguesa na área da Fibromialgia?

Para mim, este reconhecimento como Académico Correspondente da Real Academia Basca de Medicina, que é a máxima distinção que pode alcançar um médico no País Basco, é uma grande honra e é a consequência de todo um trabalho desenvolvido por muitos anos. Claro que prestigia a investigação portuguesa, porque a minha investigação foi feita na Academia Portuguesa de Fibromialgia e na Unidade de Fibromialgia, Sensibilidade Central e Dor Crónica da Mutualista da Covilhã, onde já tratamos 500 pessoas.

 

Durante a cerimónia, apresentou a palestra "Compreender a Fibromialgia: Um Modelo de Síntese e Unificação Fisiopatológica". Quais os principais contributos deste modelo e de que forma pode contribuir para uma melhor compreensão e tratamento desta doença na prática clínica?

Normalmente a Fibromialgia, para algumas pessoas, é reumatológica, para outras, é neurológica. E o que fizemos foi unificar todos os modelos existentes para entender a Fibromialgia e a ligação de todos eles, digamos assim, foi a fisiopatologia. Ou seja, estudamos desde um ponto de vista fisiopatológico, que é o que todos os modelos têm em comum. E todos os modelos o que têm em comum é uma alteração da homeostase metabólica. E essa é a alteração que há nesta doença. Portanto, é uma doença que ocorre por uma desregulação do metabolismo celular.

 

 

Como avalia a evolução da investigação sobre a Fibromialgia nos últimos anos e quais são os maiores desafios que a comunidade científica ainda enfrenta?

Eu acho que o maior desafio que enfrenta a comunidade científica não é investigar, mas acreditar. Quer dizer, a investigação cada vez se faz mais. Cada ano há cerca de 100 mil novas investigações que se realizam em todo o mundo em Fibromialgia. Portanto, é um problema, primeiro, de credibilidade. Os colegas não acreditam nesta doença, apesar de que cada vez se investiga mais e apesar de que as autoridades de saúde cada vez também acreditam mais nesta doença. O primeiro desafio seria ensinar à comunidade científica, que é incrédula, os fundamentos desta doença, porque eu acho que a incredulidade acontece porque desconhecem, porque não estudaram a doença. E a investigação cada vez é mais profunda. A que nós desenvolvemos vai no sentido de buscar um mecanismo comum fisiopatológico, um mecanismo de síntese.

 

Que impacto pensa que este reconhecimento internacional terá no reforço da Academia Portuguesa de Fibromialgia e na cooperação científica entre Portugal, Espanha e outros países?

Na Academia Portuguesa de Fibromialgia, Sensibilidade Central e Dor Crónica, há muitos anos, desde o início da sua formação, tem nomeado académicos que nos explicam nos seus discursos de aceitação quais são os seus postulados, quais são as suas investigações. Isto são novidades. É verdade que têm uma grande receção entre os pacientes, mas uma escassa receção entre o público do setor da saúde, que deveria ser o que também estivesse presente nesses atos académicos. Talvez este reconhecimento internacional, já que este ambiente académico corresponde à Real Academia de Medicina do País Basco, talvez possa ajudar nesse sentido. Não estou muito otimista, mas, por exemplo, em outros países, como o Brasil, cada vez se investiga mais, cada vez é mais reconhecido e Espanha e Portugal têm que ir nesse sentido, no sentido que foi o Brasil.

 

Que novas oportunidades de colaboração internacional, projetos de investigação ou intercâmbios académicos espera fomentar após a sua tomada de posse na Real Academia de Medicina do País Basco?

A minha entrada na Real Academia de Medicina do País Basco serve para, primeiro, como eu disse ao presidente no discurso, não entro eu só na academia, entro com todos os enfermos que têm Fibromialgia e querem curar-se de Fibromialgia. Ou seja, entramos todos na academia. E o que espero é impulsionar, efetivamente, a colaboração entre várias instituições transnacionais, ou seja, entre Portugal e entre Espanha. De facto, proximamente já vamos ter um ato de atualização em Fibromialgia, fadiga crónica, de falta de autonomia e sensibilidade central para médicos de atenção primária. Já se está estudando o programa de formação para formar todos os médicos de atenção primária, ou seja, todos os médicos dos centros de saúde nesta doença e o ambiente que envolve a doença, como é a própria “disautonomia”, a sensibilidade central, a desadaptação ao stress. Portanto, já começamos a trabalhar nisso.

 

Após este importante reconhecimento, quais são os seus principais projetos para os próximos anos e que legado gostaria de deixar para as futuras gerações de investigadores, profissionais de saúde e doentes na área da Fibromialgia e da dor crónica?

Já tenho um livro escrito sobre Fibromialgia em espanhol. Agora, estamos a fazer a tradução para o português. E, depois, vamos fazer uma espécie de “Bíblia” da Fibromialgia, ou seja, um livro que conte com as atualizações mais recentes, com a participação de doutores e académicos. Ou seja, o livro está escrito por especialistas do mais alto nível académico.

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