Opinião: António Lopes | Estabilidade vence, contestação permanece
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/02/2026 09:00
Opinião

Disputou-se, no passado domingo, a segunda volta das eleições presidenciais que colocaram frente a frente dois projetos totalmente antagónicos. António José Seguro e André Ventura protagonizaram uma luta entre uma figura institucional e moderada, perante outra que utiliza a contestação como a sua principal forma de se fazer ouvir. Os resultados são claros e expressivos. Mostram uma vitória inequívoca de Seguro, que obteve cerca de 66,82% das preferências do eleitorado nacional, em contraposição com Ventura, que conseguiu apenas 33,18% das intenções de voto. Esta margem confirma a expectativa de que a maioria dos eleitores optaria por uma figura presidencial mais centrada e mais consensual para o cargo em questão.

A vitória de Seguro não se resume apenas a números. É também de carácter simbólico, na medida em que a expressão do resultado que alcançou transmite uma mensagem de estabilidade institucional e de confiança no fragilizado e fragmentado panorama político nacional. A capacidade de Seguro atrair apoio além da sua base “tradicional”, o PS, foi, indubitavelmente, determinante para a magnitude da sua vitória.

Por outro lado, apesar da derrota, o desempenho de André Ventura não deixa de ser politicamente relevante, pelo contexto onde esta eleição se insere. Ventura lidera um partido que tem crescido de forma avassaladora no espectro político português e o facto de ter conseguido reunir mais de 30% das intenções de voto não pode ser descurado. Com efeito, significa que uma fatia substancial do eleitorado se identifica claramente com uma agenda que é duramente crítica ao establishment político tradicional.

A leitura política deste resultado para André Ventura envolve duas grandes conclusões. A primeira é que ele e o Chega consolidam, a passos largos, a sua influência no debate público, conseguindo reforçar a presença de temas como a contestação às elites políticas no centro do discurso eleitoral. A segunda é que me parece que o país limita os apelos populistas quando, numa escolha de carácter institucional, favorece alternativas moderadas e que garantam estabilidade e previsibilidade democrática.

Importa não esquecer também, que a vitória de Seguro tem implicações políticas relevantes para Luís Montenegro e para o Governo, ainda que de forma indireta. Seguro chega a Belém com um mandato forte, sustentado por uma maioria clara, de norte a sul do país, o que lhe confere maior autoridade política para fazer uso dos seus poderes constitucionais, nomeadamente o de veto e a fiscalização da ação governativa. Para o executivo liderado por Montenegro, que governa num contexto parlamentar delicado, marcado pela fragmentação, significa maior necessidade de prudência, de capacidade negocial e de construção de consensos - já assim era desde as legislativas - sobretudo em matérias sensíveis ou que possam causar divisão.

Ao mesmo tempo, André Ventura mantém a pressão sobre Montenegro, obrigando o primeiro-ministro a ser hábil perante a necessária gestão de um eleitorado descontente e que demonstra continuar politicamente mobilizado.

Em suma, a eleição de António José Seguro, traduz-se numa reafirmação da importância dos valores democráticos e do papel moderador e agregador que se espera do Presidente da República, numa altura em que as tendências populistas parecem cavalgar no cenário político internacional. A vitória de Seguro confirma que, quando confrontado com uma escolha entre dois perfis totalmente distintos, como descrito anteriormente, o eleitorado tende a privilegiar a contenção e a moderação, num contexto em que o descontentamento político permanece estrutural e socialmente enraizado.

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