O Zêzere, esmagado pelas águas da chuva dos dias anteriores, levantava um bramido atordoador ao cair dos açudes. Maria Carolina preparava a trouxa para levar ao marido, injustamente preso pelo juiz eleito da Conceição. Àquela hora da madrugada, os freixos, altos como demónios, vergastavam a frialdade que descia a serra da Estrela. Carolina prepara a mais vigorosa das suas éguas. Aconchega o xaile ao pescoço, chibata furiosamente a Russa. Lá ao longe, mais apertada que leiva em pipa, entre a Carpinteira e a Degoldra, a cidade mostra-se.
Passa perto das Quintas do Culandrário. Ao portão, um velho, com a cabeça povoada de cãs, avivava as brasas. Atravessa o furioso Zêzere na Ponte Pedrinha. Estimula o passo da égua. Depois de meia hora mais de trote acelerado, arriba ao Pelourinho. Àquela hora do dia já se encontrava cheia de gente que se acotovelava. Um amontoado de presos berrava no aconchego da enxovia. Fazia um barulho de ferros castelhanos!
O António da Silva, das Cortes, trazia em exposição um pequeno lobo, por ele agarrado no Catrão de Unhais. O pequeno animal escondia-se, muito assustado. Uma praga de cães vadios seguia a distância segura. Mostravam as dentaduras.
As audiências abrem às nove da matina. O seu homem vai ser julgado pela Justiça da Covilhã. O Zé Pedro do Ferro, assistente na Quinta dos Freixos, fora apanhado em movimentos tumultuários. Um maroto que dizia ser descendente de D. Miguel e que gostava da pinga. Numa noite agreste do mês de Fevereiro, no avinhamento do discurso, o homem do Ferro casquinava sarcasmos. O velho Abílio bem que o avisou, mas o conselho caiu em cesto roto! Na escuridão do Beco do Saco aponta uma pistola ao peito cabeludo do Domingos Gaiola. O juiz não lhe perdoa a bebedeira e a falta de pontaria. Condena-o a nove meses de prisão.
A pobre da Maria Carolina, com uma filharada remelada ao colo, recorre, com muita fé e confiança, à Nossa Senhora da Póvoa. A Santíssima Senhora escuta as suas súplicas. S. Majestade El Rei D. Luís I, “O Popular”, perdoa-lhe metade do tempo! A muito devota vai em peregrinação agradecer à Santa que se venera em Vale do Lobo.
Uma multidão de carros com alvos lençóis de linho, ligados solidamente aos estadulhos, calcorreiam as serranias da serra da Malcata, carregam o saquinho de trigo para agradecer à Santa. A romaria dura três dias, mas é sobretudo movimentada desde segunda-feira pela tarde.
As romeiras afluem de toda a parte, desembocam de todos os caminhos, entoando cantigas melancólicas, loas à Senhora, acompanhadas pelos adufes. Ana Carolina, da Quinta dos Freixos, deixa a sua tabuinha pintada, em jeito de agradecimento pelo milagre concedido.