Cinquenta e dois anos após Abril, continuamos a não compreender totalmente o ocorrido e a interpretar muito mal a libertação ocorrida. A democracia, a libertação, o fim da opressão, vêm de Abril. Mas não são a lição mais importante que foi ensinada.
A má interpretação de Abril, dos seus antecedentes e do que aconteceu imediatamente a seguir, continua a toldar a visão que temos da grande oportunidade, a mais recente, que tivemos de alterar o paradigma social português. A tentativa de bipolarizar a lente abrilista é uma redução assustadora que bem demonstra uma de duas coisas — ou, talvez, mesmo ambas: a tentativa de ludibriar ou agradar o ouvinte ou a paupérrima capacidade hermenêutica dos intervenientes. A falta de ideias, de frescura, de vontade e sentido de Estado marcam a nossa decadente classe política. Não evoluímos, mentalmente, absolutamente nada desde 1974.
O medo do futuro é um trauma da ditadura. Quem nasceu sem nada, sem esperança, na opressão antes da ditadura, e quem foi, a bem ou mal, assustado imediatamente após o seu fim, teme o futuro. O futuro de incerteza, de medo de perder o que custou a ganhar, que medo de se tirar o que sempre se teve. E vivemos neste trauma coletivo que nos bloqueia o futuro. Limitamos a nossa abordagem por medos irracionais, por um lado, e por receios racionais constantemente presentes. Essa limitação mantém uma classe de vigários, defraudados de valores empáticos e de proximidade, no poder. A política tornou-se precisamente o que foi delimitada e amordaçada a ser — substituiu-se uma classe circular por outra. Ocorreu uma mera substituição. O voto e os partidos branqueiam a substituição, mas continuam a servir os seus próprios interesses. Não representam o sentido popular, o sentido necessário no quotidiano. A distância entre o modelo político e o cidadão é enorme. Se é menor ou não que no antigo regime, não conseguimos dizer. É seguramente diferente, mas não é suficiente. O aprofundamento europeu, o globalismo e a seleção constante substituem a vontade constante e normal de uma sociedade justa, equilibrada e fraterna. É necessário, de base, mudar isso. E essa é a melhor lição que Abril nos ensina.
A lição mais importante de Abril é esta: na presença de uma situação injusta, de uma realidade bastarda, temos uma alternativa, e essa alternativa é moldarmos e mudarmos a nossa realidade. É essa a lição que aprendemos dos Capitães. É possível, inorganicamente, com vontade e organização, com inteligência, mudarmos a nossa própria realidade.
É isso que devemos ensinar aos nossos jovens. Que Abril foi muito importante pela democracia e pela liberdade, mas principalmente porque do nada se criou algo. E na democracia decadente que temos, com falsa bipolarização, com extremismos e ódios, podemos voltar a fazê-lo. Podemos mudar e moldar a realidade. Nada é porque tem de ser. A nossa vida quotidiana, as pequenas coisas, são a base para uma mudança macro e não o contrário. Não é o globalismo que nos molda — somos nós que o moldamos.
Acabo lembrando a esperança de alguém que valorizava as coisas pequeninas — Santa Teresinha do Menino Jesus. A tradição católica ensina que esta Santa dá rosas a quem lhas pede, para melhorar os dias de quem está oprimido. Pedimos-lhe, então, à nossa boa maneira, que ela seguramente não levará a mal, muitos cravos. Muitos mais. Cravos sem fim para sairmos da nossa decadência.