Opinião: António Lopes | 25 de Abril: entre a memória e a urgência do presente
Por Jornal Fórum
Publicado em 30/04/2026 09:00
Opinião

Celebrar a Revolução de 25 de Abril de 1974 é, todos os anos, um exercício de memória coletiva. Recordamos o fim da ditadura, a conquista da liberdade, o início de um caminho democrático que transformou profundamente o país. Mas, passadas mais de cinco décadas, a pergunta impõe-se: o que significa hoje, verdadeiramente, cumprir Abril?

Durante anos, o 25 de Abril foi sinónimo de direitos fundamentais, como liberdade de expressão, eleições livres, acesso à educação e à saúde, entre tantos outros. E é inegável que Portugal percorreu um longo caminho desde 1974. No entanto, reduzir Abril à sua dimensão histórica é, em si mesmo, um risco. Porque a democracia não se esgota na sua fundação. A Democracia mede-se, sobretudo, pela sua capacidade de responder aos problemas concretos das pessoas.

E é precisamente aqui que começam as fragilidades.

Portugal enfrenta hoje desafios estruturais que persistem há demasiado tempo. O acesso à habitação tornou-se uma das principais fontes de desigualdade, com preços incomportáveis para grande parte da população. Os salários continuam baixos quando comparados com o custo de vida, empurrando muitos jovens para a emigração ou para uma precariedade prolongada. Os serviços públicos, em particular na saúde, revelam sinais de desgaste ou de uma incapacidade tal que afetam diretamente a qualidade de vida dos cidadãos.

Mas não, nada disto é novo e talvez esse seja o problema mais sério.

A incapacidade de resolver questões estruturais alimenta um sentimento de frustração e descrença. Quando as pessoas sentem que trabalham mais, mas vivem pior, a confiança nas instituições democráticas fragiliza-se. E é nesse espaço que crescem discursos simplistas, soluções fáceis e propostas que colocam em causa os próprios valores de Abril.

A história recente europeia mostra que nenhuma democracia está imune a retrocessos. Portugal não é exceção. A estabilidade democrática não depende apenas de eleições regulares ou de liberdade formal. Acredito e defendo energicamente que depende, acima de tudo, da perceção de que o sistema funciona e de que melhora, de forma concreta, a vida das pessoas.

É por isso que celebrar Abril não pode ser apenas um exercício simbólico.

Mais do que palavras, mais do que discursos institucionais, mais do que evocação histórica, os cidadãos exigem resultados. Querem sentir no seu dia a dia que a democracia produz impacto, seja no salário ao fim do mês, seja no acesso a uma casa, seja na qualidade dos serviços públicos ou na segurança de um futuro estável.

Sem essa ligação entre democracia e bem-estar, o risco não é imediato, mas é real. Tenho alertado, de forma veemente e sempre que posso para uma evidente erosão lenta da confiança, que pode abrir espaço a soluções que prometem muito, mas que colocam em causa o essencial.

Cumprir Abril, hoje, é garantir que a liberdade conquistada em 1974 se traduz em condições de vida dignas em 2026. É transformar direitos formais em realidade concreta. É mostrar que a democracia não é apenas um regime político, mas um instrumento eficaz ao serviço das pessoas.

Porque, no fim, a força de Abril não está apenas no que conquistou. Está sim naquilo que ainda temos de ser capazes de cumprir.

 

António Lopes, Autor do programa “O Corredor do Poder”

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