Em “Dias Perdidos no Paraíso”, o autor, Pedro Silva, instiga a curiosidade com um manto diáfano de enigma. Este nosso conterrâneo já fez de tudo na vida, desde vereador executivo até empresário e pai. E, aqui, propõe-nos uma obra que, sem perder o cariz autobiográfico, nos interroga sobre o sentido da vida na sua mais fundamental certeza — a sua finitude — e também sobre o que Cícero designou de beata vita em “A Arte de Envelhecer”.
Que não se inquietem ateus e agnósticos. O "beato" aqui não tem nada a ver com religiosidade católica, pois Cícero viveu muitos anos antes de Cristo. No entanto, ao lermos esta obra de Pedro Silva, encontramos, com a frescura da atualidade, a interrogação sobre as questões mais fundamentais que a todos nós apoquentam. Ninguém ficará indiferente depois de ler este livro, pois as inquietações e a serenidade da idade manifestam-se em todos nós.
O medo é inerente ao ser humano. Será que continuamos humanos se deixarmos de ter medo? Será desejável não ter medo? Ou, por outro lado, vivemos atormentados com medo de ter medo? Martin Luther King, como tantos outros, partilhou a sua visão sobre este tema: "A coragem é uma resolução interna para seguir em frente apesar de obstáculos e situações assustadoras; a cobardia é uma rendição submissa à circunstância. Os homens corajosos nunca perdem o entusiasmo por viver, ainda que vivam uma vida sem entusiasmo; os homens cobardes, esmagados pelas incertezas da vida, perdem a vontade de viver. Nós devemos constantemente construir diques de coragem para resistir à inundação de medo."
O maior ato de coragem de todos os que escrevem, e, aqui, também de Pedro Silva, é a capacidade de abrir a mente e partilhar pensamentos íntimos e profundos. Ainda que se trate de uma obra de ficção, há sempre uma exposição pessoal que exige uma coragem de que muitos falam, mas poucos assumem.
Pela mente — ou será pelo espírito? — do protagonista do livro, somos levados também à literatura universal, de que “La Divina Commedia” de Dante é uma das referências: "No meio do caminho da nossa vida, encontrei-me numa selva escura, pois havia perdido o rumo certo". Esta selva escura representa a crise existencial e moral da maturidade. O momento em que a juventude física já passou e precisamos de decidir como saber envelhecer, talvez com a virtude que Cícero defendia. Convém aqui dizer que Cícero não foi batizado, pelo que Dante o colocou no limbo. Porém, devido à sua imensa sabedoria e virtude política, Cícero não sofre qualquer castigo físico. Ele habita um castelo luminoso junto de Aristóteles, Sócrates e Platão, assim destinados a uma eternidade de respeito e contemplação intelectual. Quem já leu o livro de Pedro Silva reconhecerá aqui alguns elementos.
Mas assim que são publicados os livros já não são propriedade do autor. É cada um dos leitores que materializa, na sua mente, a sua própria leitura da obra. E aqui está presente uma outra grande virtude dos autores, a generosidade.
Resta, porém, a interrogação que encima estas linhas e que dá título a esta reflexão: onde se oculta, afinal, o oxímoro? A resposta não se impõe na crueza do texto, antes se evoca no diálogo silencioso e quase sagrado entre a página e a mente desperta de quem a lê. Talvez esse oxímoro resida na própria condição humana que Pedro Silva aqui disseca, na conquista de uma velhice serena que se ergue sobre o sobressalto do medo, ou na celebração de uma vida efémera que aspira à eternidade intelectual daquele castelo luminoso de Cícero. Encontrar essa harmonia de contrários nas páginas de “Dias Perdidos no Paraíso”, ou nelas fundar novos, íntimos e personalíssimos sentidos, é o privilégio supremo de que o autor abdica em favor de quem folheia a obra. Fica, pois, o convite à viagem. E que cada leitor ouse cruzar esta selva escura para, na intimidade da sua própria interpretação, deslindar a beleza desta contradição.