Opinião: Marcos Leite | Olhar de imigrante
Por Jornal Fórum
Publicado em 30/07/2026 09:00
Opinião

A saudade é uma emoção presente. Por mais calada, calma ou silente, é sempre uma emoção em potencial, pronta a irromper. Basta combinar poucos fatores e ela aparece, remetendo-nos às suas origens e ao despertar de questionamentos, positivos ou não. 

Por ocasião das comemorações do «Dia do Amigo», celebrado no Brasil na semana passada, fui invadido por aquelas mensagens piegas. Embora eles não tivessem combinado, funcionou como um ataque ordenado. Conseguiram, foram certeiros. Usar, na mesma frase, piegas e amigo, pode ferir um pouco a grandeza da segunda palavra. Mas não. A amizade é piegas. É assim porque é livre. Só a liberdade sustenta uma amizade. É por isso que nem mesmo os amigos são capazes de demover alguém que resolve partir para longe. É verdade. Se a família não suspende uma partida, os amigos tampouco. Fica, então, a saudade. Ela é o elo. O masculino do feminino. 

Eis que numa dessas mensagens também recebi uma música. O gatilho perfeito. Em segundos transportei-me ao lugar de onde parti e ao qual, sabe-se lá quando, estarei de volta. Há um ano retornava do Brasil. Foi a única visita em quase quatro anos de imigrante. Nem vou comentar os abraços que lá deixei. Mas voltando à música, só ela tem essa capacidade. Cria o cenário de aconchego dos nossos sentimentos, das memórias que surgem como fotografias guardadas por engano no fundo de uma gaveta. É preciso ter coragem para ouvir estas músicas até o fim. A oportunidade de provocar emoções íntimas é grande. Não a ouvir por completo, é como ao caminharmos pelos passeios, ignorarmos alguém com quem um dia trocámos intimidade. Não há receita. É preciso ouvir, resistir e depois decantar. São as sementes do amor que espalhamos e que, volta e meia, aparecem em nosso caminho com a harmonia das notas musicais.  

A situação piora quando essas imagens remetem-nos a determinados lugares que marcaram a nossa jornada. Estranho mesmo é quando prestamos atenção e percebemos que há algo de diferente. Quando nos custa reconhecer o lugar. Como se precisássemos sobrepor a imagem da memória com aquela que os olhos veem. É como nos sonhos. Sabemos onde estamos, mas o lugar está diferente. A mínima alteração causa uma sensação estranha, de abandono, de desgarrio, um despertencimento que condena aquele que optou por registar novas memórias, caminhos e paisagens. E, por um instante, pequeno que seja, é como se estivéssemos a passear por um espaço que nunca foi nosso e que, ao mesmo tempo, ousamos dizer tratar-se «da nossa terra». 

Este é o olhar do imigrante. Uma personagem do planeta que resolveu pertencer a qualquer lado. Um sujeito que tem raízes, sim, mas que tenta levá-las consigo para onde quer que vá, como se as árvores tivessem asas ou pernas. E assim acabamos, neste dilema eterno de liberdade e segurança. A segurança que somente as raízes são capazes de proporcionar, com todos os limites que impõem à nossa liberdade, à nossa capacidade de ir além, de conhecer novas paisagens, de ter novas experiências e memórias. Até que chega o dia em que essa liberdade nos revela uma inconveniente verdade: quem sai e demora a voltar, acaba por não pertencer a lugar algum. Se as raízes são abstrações, não sei, mas quando as rompemos é preciso agarrar-nos às memórias e não resistir à saudade. Se ela é a mais bela palavra dessa língua que chamamos portuguesa, a memória é o pai do filho pródigo. Sempre escolhe acolher o amor. 

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